depois da explosão

Eu não tenho nenhuma pretensão de mudar nada. Tudo que tinha que ser eliminado já foi. Experimentar essa vida nova, toda podada. Ainda que doa, liberta. A brutalidade selecionou o que vai e o que fica, e é com alegria que eu apresento as permanências e o conforto que delas resultam.

Quem permanece provem da síntese da dialética mais dolorida, do confronto verdadeiro entre o que eu não poderia mais suportar e a vida – verdadeira – que eu desejo viver.

Ainda que às vezes eu recaia em nostalgia, estou feliz. Feliz e segura a ponto de manter todas as cartas que não foram enviadas na gaveta e não sentir que a permanência delas me impacte.

O único perigo aqui é perder/esquecer as conexões que me levaram a tomar algumas decisões. O perigo é acabar supervalorizar os efeitos, a história escrita e recair na depressão das impossibilidades da ação.

Pessoalmente, todo meu policiamento será em torno disso. Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram?

Calar em mim o que os outros me fizeram emudecer seria o maior erro que eu poderia levar para o futuro.

literatura e censura

censura

censura

Minha opinião sobre isso:

Talvez o digníssimo vereador tenha lido muito pouco. Talvez não tenha tido a experiência de interpretar, colocar-se no lugar do outro, posicionar-se frente a determinadas situações propostas pela literatura.
Não compreende o amadurecimento que a literatura é capaz de causar nos leitores a partir do contato com o mundo ficcional. Além disso, talvez desconheça, enquanto educador, maneiras de orientar a leitura e conduzir discussões sobre temas polêmicos. Desconhece, certamente, o potencial transformador do próprio papel mediador do professor em sala-de-aula. E é um diretor de escola. Não percebe que ao negar a sexualidade, afirma sua preponderância. Infelizmente, a partir de referenciais pejorativos como o próprio termo pornografia sugere, emite uma concepção proibitiva sobre a sexualidade, o que certamente não é o mais adequado quando se pretende formar jovens autônomos e críticos. Talvez esta não seja sua maior preocupação.

l´uomo conduce ma la donna non é una marionetta

Sempre vi no tango algo libertador.

Que falem todos da predominância masculina e a regra da condução das mãos do homem.

Discordo.

No tango, a mulher pode ter todo o controle, se quiser.

Em relação a todas as outras danças de salão, acredito que o tango é a única dança cuja delícia – para a mulher – reside justamente em fugir do domínio masculino, mostrar as brechas e incoerências de sua condução, e submeter-se, quando bem quiser – e somente se quiser – ao seu domínio, quando na verdade, as únicas coisas a se submeter são as regras do jogo: Os oito passo.

No tango uma mulher subserviente não acrescenta ao espetáculo, ao contrário.

No tango, a mulher tem que deixar o cara tonto, passando mal, perdendo o controle. E o mais importante, fazê-lo perceber que não tem controle nenhum, que pode não ser obedecido. As melhores dançarinas sabem que em cada condução masculina existem possibilidades de se fugir dela. Poderia ser dito que elas fogem, estabelecem os limites do seu domínio.

O melhor exemplo que encontrei disso está aqui. Taí o exemplo de uma potencial boss portenha.

* o título do post é o título de um artigo por mim ainda não encontrado da italiana Lidia Ferrari.

class struggle e a negação do conflito

class struggle e a negação do conflito

eu faço desse blog um lugar de experiências mentais. 
e o que eu quero falar hoje é sobre a tendência que se tem de negar os conflitos, de se buscar a todo tempo a homogeinidade, a harmonia, o equilíbrio. 
mesmo o duvidoso pensador edgar morin considera o erro como algo importante. enfim, a idéia de desvio, já em durkheim, já está no próprio marx a partir do conflito.
e esse é o desafio, pensar dialeticamente, num exercício bem dolorido e prazeroso. se a totalidade é contraditória, então serão todas as partes contraditórias. se o capitalismo é contraditório, todas as relações a ele submetidas são contraditórias, inclusive – e talvez sobretudo as relações entre as pessoas. 
há quem veja nisso uma tautologia desonesta. Desonesto é ver tautologias disfarçadas. Quem quer a derrubada desses meios de produção pensa e age a partir disso. Cada um no seu quadrado, cada um mantendo, conservando ou rasgando o que bem convier para seu bem estar. Conservar também pode ser tautológico.
E aí tudo é ideologia, tudo é tautologico, tudo é humano e o universo é uma caixa de espelhos. Aí a importância da materialidade, que no mundo cool fica como a class struggle. (em breve fazei camisetas descoladas com esse texto) class struggle seja entre manos e playboys, ou qualquer outra coisa, whatever.
temos que aprender a apreciar a beleza do conflito, afinal não somos um monte de abelhas de corpinho redondo e roupinhas listradas. 
mas sobre estética marxista eu falo outro dia. 
ah, sobre o saca rolhas: no proximo post eu explico a mística do saca-rolhas para mim, como ele é a objetivação do materialismo histórico.eu faço desse blog um lugar de experiências mentais 

e o que eu quero falar hoje é sobre a tendência que se tem de negar os conflitos, de se buscar a todo tempo a homogeinidade, a harmonia, o equilíbrio entre outras coisas caretas.

mesmo o duvidoso pensador edgar morin considera o erro como algo importante. enfim, a idéia de desvio, já em durkheim, já está no próprio marx a partir do conflito. e qualquer pessoa que tenha o mínimo prazer em pensar sabe como é bom negar certezas…

e esse é o desafio, pensar dialeticamente, um exercício bem dolorido e prazeroso. se a totalidade é contraditória, então serão todas as partes contraditórias. se o capitalismo é contraditório, todas as relações a ele submetidas são contraditórias, inclusive – e talvez sobretudo as relações entre as pessoas. 

(há quem veja nisso uma tautologia desonesta. Desonesto são tautologias disfarçadas. Quem quer a derrubada desses meios de produção pensa e age a partir disso. Cada um é/vive/pensa/morre no seu quadrado social, mantendo, conservando ou rasgando o que bem convier para seu bem estar. Conservar também pode ser tautológico.

Ok, conversa ficando chata. E aí tudo é ideologia, tudo é circular, tudo é humano e o universo é uma caixa de espelhos. FIM.

Eis que vem a importância da materialidade – do estomago roncar de fome para nos lembrar que temos problemas mais urgentes. É o que na linguagem cool poderia ser traduzida como class struggle. (em breve fazei camisetas descoladas com esse texto) seja class struggle entre manos e playboys, cdfs e fundão (onde tem classe ai? herdeiros e evadidos, K cultural, bunnies!) ou qualquer outra coisa, whatever.

temos que aprender a apreciar a beleza do conflito, afinal não somos e não seremos – e eu morrerei por isso – um monte de abelhas de corpinho redondo e roupinhas listradas. 

mas sobre estética marxista eu falo outro dia. 

ah, sobre o saca rolhas: no proximo post eu explico a mística do saca-rolhas para mim, como ele é a objetivação do materialismo histórico.

 

MinC, Aliança Francesa, mil instituições, artistas, gourmets e gourmands. Promoção bilateral? de cultura?. Igualdade de condições? Não sei. Defendo veementemente que não. E eis minha experiência.

Rua da França em Curitiba no último sábado. Rua Prudente de Moraes (coincidência ou não, um oligarca cafeeiro paulista) atravessada por barracas brancas e pessoas elegantes com jacarezinhos convergindo de todos os lados. Dentro das barracas, algumas mesas com distintos, vinhos em uma micro taça por oito reais, boulangerie em geral, porcariazinhas como misto-quente por cinco reais chamados de croque-messieur.

Um escândalo, uma feirinha de trocas simbólicas. Há quem diga, um luxo. Um esbanjamento de ostentação por parte dos consumidores e vendedores. Maus tratos aos destoantes. Brasileiros falando francês hostilizando brasileiros. Vendedores hostilizando tudo que destoasse do padrão homem, branco, bem sucedido (ou em palavras mais claras, burgueses com Lacoste).

Tenho absoluta certeza de que uma parte dos franceses consideraria um evento desses completamente bizarro. Considero, evidentemente, todo o mérito do excelente artista plástico – francês – que retratou Curitiba. Mas fora isso, nada de novo.

O que a França tem a mostrar a um país subdesenvolvido como o Brasil, que têm suas elites todas intelectualmente condicionadas a partir do exemplo francês? De novidades, artes de rua pós-modernas, as possibilidades do popular, a arte da periferia.

Mas na Rua Prudente de Moraes não há espaço pra isso. Há espaço, somente, para a reprodução de relações colonialistas entre brasileiros. Sublinho, entre brasileiros. E o mais bizarro, uma combinação de feudalismo com república. Uma fusão mal resolvida de uma elite local que apesar de ver toda a beleza do mundo nas três cores e no lema da revolução francesa, não conhece princípios de racionalidade da impessoalidade.

Uma elite bem à la Prudente de Moraes, provinciana – ou muito melhor, batelense – retrógrada, que insiste em adquirir hábitos europeus mas não permite transformações porque sua visão de mundo é muito restrita às estruturas mentais de senhores feudais.

Portanto, a despeito de toda a boa intenção possível dos organizadores, algo de muito estrutural em Curitiba deu suas caras nesse sábado. Não se mostrou, sequer se trocou cultura. Evidente foi o pedantismo dessa elite classicamente moderna por fora, absolutamente imóvel e rudimentar por dentro que mais retarda do que edifica tudo em termos de cultura nessa cidadela.

prazer com Lukacs

(Nosso amigo aí tava passando mal. Eu que o diga, não suportava mais aquele template! Mudeeeeei!)

To gozando com Lukacs. Minha auto-ajuda do feriado.

Não tem em outra língua onlain. Então transleiteiem. Eu não vou perder tempo racionalizando trechos do MEU prazer (intelectual):

“This tendency in capitalism goes even further. The fetishistic character of economic forms, the reification of all human relations, the constant expansion and extension of the division of labour which subjects the process of production to an abstract, rational analysis, without regard to the human potentialities and abilities of the immediate producers, all these things transform the phenomena of society and with them the way in which they are perceived. In this way arise the ‘isolated’ facts, ‘isolated’ complexes of facts, separate, specialist disciplines (economics, law, etc.) whose very appearance seems to have done much to pave the way for such scientific methods. It thus appears extraordinarily ‘scientific’ to think out the tendencies implicit in the facts themselves and to promote this activity to the status of science”.

Se tu não tivesse virado stalinista, beijo na tua boca, LINDO!

 

Plus: diversão garantida

E pra quem interessar, da mesma categoria que o ilustríssimo ideólogo de direita, Senhor Alborghetti, Sr Olavo de Carvalho – um cérebro de cabeça de caviar, certamente – , numa cruzada ideológica eletrizante no território da araucárias:
 http://www.olavodecarvalho.org/textos/ufprdebate.htm

(obrigada babelle por essa pérola)

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discurso de formatura

para ficar aí para posteridade… (meu)

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Discurso de formatura 

Amigos, sabemos que o sinal está fechado prá nós, jovens. Os revezes são por demasiado conhecidos. Contra todas as expectativas, hoje quero falar, sobretudo, da beleza extravagante do nosso incompreendido curso de graduação.

Se a escolha pelo curso de Ciências Sociais não é nada óbvia, muito menos óbvia é a nossa permanência nele. Por isso, nessa formatura, há especialmente algo de muito honrado. Pais e amigos que acompanharam minimamente nossa trajetória têm condições de saber quantas crises esse curso é capaz de fornecer. E são muitas. São intensas.

Acredito que todos os formandos que estão aqui hoje se permitiram repensar minimamente suas vidas. Ciências Sociais tem uma característica dolorida. Nesse curso somos conduzidos a resolver as contradições que nossas auto-análises criam. Passamos a pensar no sentido das nossas ações. As formas de controle já nos passam a ser tão óbvias de modo que é quase possível sentir a estrutura doendo nos músculos, e o sangue pulsando pelo desejo de ação nas veias.

Essa auto-análise de que falei se dá quando nós repensamos e refletimos sobre nossa história, nossa família, nossos discursos, nossos valores, nossas práticas, nossa luta cotidiana. Nos posicionamos, nos classificamos. Como se já não bastasse a dificuldade de dar conta dessa inúmera quantidade de reflexões subjetivas, nos lançamos no desafio arriscado de passar a produzir conhecimento sobre a sociedade, de refletir, compreender ou explicar fenômenos sociais.

Pais, mestres, amigos, amores: Vocês têm algo de privilegiado por perto. Vocês terão, condensadas nas idiossincrasias pessoais de cada formando, conflitos inconciliáveis e por certo bem enfadonhos, meio insensatos, mas que terão uma beleza encharcada de humanidade.

Algo belo de quem – talvez – numa busca louca por coerência revele-se incoerente, ou numa sensibilidade treinada perceba problemas onde –evidentemente- não deveria haver. Sempre teremos mais perguntas do que respostas. Mais inquietações do que certezas.

Hoje, jovens pesquisadores e educadores em ciências sociais, colamos grau. Com a sociedade como objeto, sofreremos o risco de ao explicitar contradições e desconstruir preconceitos, escovarmos nós mesmos a contrapelo. Somos observadores e objeto. Essa situação de potencial desconforto será perseguida por alguns de nós. Outros se afastarão. Será possível afastar-se dessa condição tanto dentro como fora da cidadela acadêmica, no refúgio de abstrações e métodos ou no refúgio de melhores salários.

De qualquer forma, temos poucas escolhas cabíveis dentro dessa armadilha em que entramos. E que armadilha ler que “homens fazem sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade”! Nós temos vontades, somos mulheres e homens plenos de pulsões. Nossos amigos, amores, mestres e familiares bem o sabem. Conhecem nossas impressões e delírios sobre um futuro incerto e até mesmo improvável. Nós sabemos, no entanto, porque enquanto cientistas sociais, que nem todos continuarão.

Sabemos que as escolhas serão privilégio de poucos, a despeito do grande esforço de muitos. Conhecemos a canção em que a roda-viva carrega a roseira. Já não somos como na chegada. Lutaremos enfim, na medida do possível, pelas essas belas abstrações da livre vontade, da autonomia, da liberdade. Ainda que sob o jugo da história dos vencidos, ambicionaremos abrir nossas histórias.

uma mente perturbada com a racionalidade instrumental

quanto eu ainda estava na economia, eu resolvi voltar a pé pra casa. era um caminho longo, de quadras compridas, viadutos e morros. era final da tarde e eu vi um homem subindo um poste em cima do viaduto. ele ia tirar uma foto do por do sol. na realidade deveria estar esperando. alguns passos depois entrado o crespúscolo em seu fim, sobre a br, dezenas de carros lentos em fila em alerta. no final do viaduto, uma senhora idosa morimbunda numa maca que ia pra ambulância, enquanto seus filhos choravam no portão. tem coisas que os números não captam, muito menos uma mente que se deixa facilmente convencer por eles. larguei o curso duas semanas depois.

 

não tenho palavras. depois de muito meditar hoje sobre a “substância do vidro” percebi que temos uma tendência muito grande de ficarmos na velho mundo da observação de seres vivos. mas não é tendência. hoje conheci uma menina muito querida que será minha companheira nessa aventura alquímica no mundo dos vidros, e parece ser muito sensível a essas impressões.

sempre tive alguma adoração mal formulada por vidros. espelhos, janelas, lentes e suas transparências sujáveis. boa parte das fotos que tirei com algum sucesso demonstram um pouco essa deformação do espaço que o vidro permite. e agora posso dizer que esse é o caráter mais observável, óbvia e provavelmente mais superficial dele. 


o vidro é dotado de algumas peculiaridades. é intolerante a indelicadezas, preferindo espatifar-se perigosamente quando não são respeitadas suas regras, seja infração cometida por mãos inadequadas ou mesmo por ondas mecânicas. o vidro se transforma numa arma e pode ser veneno quando contrariado. 


mas é possível segurar cacos de vidro sem se cortar. é possível moldá-lo se souber como aquecê-lo. é possível colorí-lo se estudar suas reações…. 


jamais vi um processo de transformação e de criação artística em que é tão importante respeitar a substância. e digo isso porque me parece um respeito de natureza meio mística. lidar com vidro é impreterivelmente ritualístico. uma experiência mística que muito me fez lembrar meu profeta walter benjamin na divinamente inspiradas teses sobre o conceito de história.


pode parecer loucura mas se acreditamos numa mudança necessária, é preciso recuperar a dimensão espiritual e mística que o capitalismo faz perder desencantando o mundo. papel verdadeiramente revolucionário, além de explicitar contradições, é reencantar o mundo inspirados no desejo de mudança, concretizando esse futuro distante numa dimensão simbólica. e acho que o vidro pode me ensinar muito disso. não estou delirando….

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